Autobiografia Capítulo 6_ Amigos Incondicionais

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Autobiografia de um Jovem Surdocego – Capítulo 6

Capítulo 6: Amigos Incondicionais

É engraçado que, quando estamos bem, temos muitos amigos mas quando estamos mal os mesmíssimos passam a meros conhecidos…

Pelo menos foi assim comigo quando fiquei surdo e cego profundos. Até o meu melhor amigo Pedro de repente passou a ignorar-me… passando por mim como se eu fosse cor de vidro…

O sacana ainda por cima aproveitou para me roubar um poster do Dragon Ball Z de que eu era um grande fã. A minha maninha não gostava nada dele que, um belo dia, riscou-lhe o braço gordo e mimoso com as suas abençoadas unhas de gatinha. O Pedro ficou pois tão fulo que não quis mais ser meu amigo.

Com o afastamento dos outros jovens da minha idade, muitos deles meus colegas de escola, fui percebendo tristemente que os meus amigos leais e verdadeiros, os de todas as horas, eram a minha mãe, as minhas manas e o inseparável Gil que dormia aninhado e feliz aos pés da minha cama.

Até a barulhenta máquina de escrever em Braille tornou-se a minha grande amiga, confidente e principalmente o meu refúgio. A minha família acabou por acostumar-se pouco a pouco ao matraquear do pianista, que tocava alucinada mente até depois do sol se pôr.

Escrevia histórias de fantasia onde tudo era possível até um cego voltar a ver e um surdo ouvir. Escrevia também histórias de amor incondicional onde não existia preconceitos, nem tão-pouco rejeição pelo que eu era.

No entanto, aprender braille não foi uma decisão fácil porque agarrava-me com dentes e unhas aos últimos reflexos de luz e sombra. Agora o que eu via era apenas sombra, uma única e triste cor…

E se não fosse o apoio incondicional e o incentivo constante da minha família não sei se teria conseguido sobreviver a tal experiência. Até o meu pai me tentou convencer a aprender braille quando eu não tinha vontade para nada. Disse que talvez ainda houvesse alguma esperança de eu segurar a pouca vista que tinha, mas que podia levar tempo e à falta de melhor o braille só me traria vantagens.

Eu, pelo meu lado, não via as coisas com a mesma leveza, mas não era parvo. Sabia muito bem o que estava a acontecer-me a um ritmo galopante. Que de ano para ano a minha visão se ia estreitando e enevoando como se tudo não passasse de um borrão indefinido…

Apesar disso eu não era uma pessoa amarga e um derrotista, porque queria fazer as coisas sozinho, como tomar banho, fazer a barba, vestir-me, comer com os talheres, descer e subir as escadas a correr, estudar, ler e especialmente de brincar com a minha maninha Cátia.

Para falar franco ela era a minha melhor amiga com quem brincava muito. Eram momentos muito divertidos que me faziam esquecer por instantes a mágoa de ser diferente. Além disso, era também a minha intérprete porque a minha mãe não sabia escrever-me na palma da mão letra após letra e com o auxílio do dedo indicador. A sua letrinha infantil muitas vezes confundia-me o cérebro e ela às vezes perdia as estribeiras e dava-me murros na mão. Mas no fundo ela gostava muito de mim e era muito querida para mim. Ficava super contente quando eu conseguia algo contra a expetativa de todos. Bem que lhe tentei ensinar o alfabeto braille mas ela adorava era brincar comigo, fazer batota e pregar-me partidas.

Lembro-me de certa ocasião ela me fez soltar um berro de pavor ao sentir um caranguejo a trepar sobre mim. Não passava de um inofensivo caranguejo zombi que ela tinha descoberto sabe-se lá onde e atado a um cordel para me assustar. E aquele memorável dia em que me fez procurar debaixo da minha cama pelo cão-guia que me queriam oferecer. Parvo acreditei e pus-me a procurar pelo cão enquanto ela imitava na perfeição o ladrar alegre do animal. E, quando me apercebi que não havia cão nenhum debaixo da minha cama, fiquei por breves momentos deveras desiludido mas acabei por misturar as minhas gargalhadas às dela.

Infelizmente não cheguei a ter um cão-guia que um vizinho e colegas dele queriam dar-me muito por culpa da minha surdez que era total. A minha mana Sandra começou a ir comigo às consultas quando o meu pai abriu um café e a minha mãe teve a Cátia. Ela só perdia dias de trabalho para nada porque o meu médico dos ouvidos não procurava uma solução para mim e por causa dele perdi anos preciosos da minha juventude mergulhado no mais triste silêncio. Também a minha irmã ia comigo às consultas da vista que se repetiam iguais. A minha mana detestava a prepotência da médica que falava pouco ou nada, que repetia a mesma cassete, que não reconhecia o seu erro… Pois numa consulta saiu despeitada de ao pé de mim quando a Sandra lhe chamou de remendeira. Eu, que na altura só me preocupava em arranjar uma namorada, não sentia revolta nem ódio do que a médica tinha feito aos meus olhos. Apenas sentia na pele a rejeição de ser diferente, o desânimo de já não ver e a consequente falta de liberdade. Porque desde que me conheço por gente era muito galdério, muito dado a malandro, muito aventureiro… enfim, era normal como os outros.

Não escondia que gostava de ir à discoteca com as minhas manas, de beber umas minis até ficar eufórico e chegar a casa de madrugada. Quanto menos pensasse melhor. Agir. Apenas isso. Viver o momento. Pois já era duro para mim ver-me privado dos sentidos mais essenciais para me atormentar com um coração sofredor. Pois sonhava conhecer uma rapariga que olhasse para dentro de mim e me achasse bonito por fora…

Quando terminei o nono ano não fui para a secundária que me estava totalmente inacessível. A justificação era ao mesmo tempo óbvia e cruel: não tinham professores especializados na surdocegueira e o nível de exigência era outro. O que fizeram foi matricular-me num curso mais prático sobre técnicas administrativas para alunos repetentes ou com dificuldades de aprendizagem. Eu era o único da turma que tinha deficiência multissensorial; dois colegas meus, o Nelson e a Beta, eram deficientes motores; o Ricardo tinha Down e os restantes eram apenas preguiçosos.

Graças à infinita paciência da professora Ivone que aprendi braille depois de muito espernear. Também a confiança da professora Lília foi vital para que eu fosse o melhor da turma em contabilidade e obtivesse no final do curso a nota máxima. Passei de aluno preguiçoso a esforçado ao ponto de querer ser notado e quem sabe impressionar alguma menina. Mas continuava a ser o patinho feio da turma muito por culpa do acne e dos meus óculos horrorosos…

De tanto me esforçar acabei por cegar para meu completo desespero. E o engraçado é que a minha tábua de salvação foi o que menos esperava: o braille. Não foi o computador equipado com um terminal braille que o Estado nunca chegou a dar-me quando mais precisei, mas a minha força de vontade e o meu grito de que ainda queria viver mesmo que as oportunidades fossem raras para mim. E eu consegui o que eu próprio duvidava ser capaz de concluir o curso com distinção.

Contudo, a guerra não

estava ganha. A secundária continuava distante para mim. As capacidades de que tinha dado mostras não eram suficientes. Sem um computador equipado nada feito. E como arranjar um professor de ensino especial a tempo inteiro?

Foi então que se lembraram do único colégio para crianças e jovens surdocegos, o António Aurélio, de que eu não quis continuar lá por estar longe de casa e não me identificar com os outros meninos, muitos deles surdocegos congénitos e com problemas mais graves que os meus.

Lembro-me da Jacinta que tinha nascido sem olhos, apenas preenchidos por uma pele lisa. Ela emitia uns sons agudos quando chorava porque tinha a cabeça baixa exatamente como se chora. Era bem parecida mas nascer-se surdo cego era mil vezes pior e o mais triste é ser abandonado pela família ao nascer…

Porém, tinha feito amizade com a Ezamilsa e o Bruno que era muito engraçado não por ser estrábico mas porque orgulhava-se de ser o mais velho de nós três.

Por essa altura quiseram ensinar-me braille e orientação e mobilidade mas como desisti e desapareci do mapa não aprendi lá nada. Até me esqueci por completo do pouco que aprendi de trabalhos manuais e língua gestual. E eis-me a bater-lhes à porta a pedir-lhes orientação para o meu futuro.

Não era eu evidentemente que decidia a minha vida, muito simplesmente porque não ouvia o que falavam a meu respeito. A minha família e as minhas professoras achavam que o meu lugar era junto dos surdocegos como eu onde poderia aprender muitas coisas e quem sabe ter um trabalho. Mas o colégio não era a ACAPO, nem um centro de formação profissional como a APEDV, nem tinha professores como nas escolas ditas normais. Ali se ensinava o básico para uma vida o mais autónoma e digna possível, como ensinar um surdo cego congénito a fazer a sua própria higiene e a comer corretamente com os talheres

O meu futuro estava em suspensão. No entanto, eu suspirava de alívio porque assim obrigava a escola a tomar uma atitude. E seria demasiado vergonhoso que ela pura e simplesmente me negasse o que estava consagrado nos Direitos do Homem.

Não estava a virar as costas aos meus amigos surdocegos, nem tão-pouco a ser irrealista, mas sim e tão somente a querer um tratamento igual e a poder ter as mesmas oportunidades para continuar a sonhar. Mas seria mais um sonho impossível? Uma esperança vã como muitas vezes?

Coimbra teria sido a minha salvação se a minha médica não me tivesse espatifado a visão… Coimbra teria sido também o meu renascimento com um implante coclear que teria sido a minha superação… Mas o meu médico de Lisboa era um cabeça na Lua. Teria de sofrer desnecessariamente mais uma década condenado a vagar pelo vácuo como um planeta perdido do seu sistema solar…

E precisava de uma vez por todas de esquecer a minha paixoneta pela Rosana Patrícia e partir para outra. Mas qual outra? Se todas fugiam de mim a sete pés…

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Coragem

Do abismo da luz todos têm horror,
Pensam no vazio, limite, que sentirão;
Na sua solidão e na sua condição;
Nos seus sonhos agora de dor…

Só têm um longo túnel e um vale
Nublado como o frio horizonte.
Têm de subir, com coragem, o monte,
Cuja missão de vida a nós cabe!

Espera-nos além uma nova luz
Que a descrença alheia não enxerga.
Mas para que serve a descoberta?

Porquê fazer o mesmo que a avestruz?
Porquê pedir um milagre a Jesus?
Porquê fechar uma porta entreaberta?

©Marco Branco

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Autobiografia de um jovem surdocego 5

Capítulo 5

Uma Cura A Peso de Ouro

Uma mãe faz tudo o que está ao seu alcance para amenizar o sofrimento do seu filho. Assim fez a minha mãe. Como os médicos nada podiam fazer por mim — a sapateira remendeira da minha médica só tinha feito asneira e da grossa –, a minha mãe voltou-se, então, para Deus com a esperança renovada.

Havia por aí seitas que prometiam curas milagrosas mas não grátis. A primeira onde a minha mãe me levou era um escritório alugado, assim o pensei mal entrámos. Em cima da secretária repousava uma viola. Da parede da frente havia uma cruz de madeira para dar um ar solene ao ambiente. E a um canto uma porta misteriosamente fechada.

Sentámo-nos em cadeiras de plástico dispostas como numa sala de cinema. E que filme extraordinário! Porque antes da aparição do suposto padre, um homenzinho baixo se afadigava pela assistência numa animada recolha de donativos sabe-se lá para que obras de grande caridade. E ao parar junto de mim, não me apercebi do saco que ele me estendia, já bem recheado de moedas. Foi a minha maninha Cátia que, a um sinal seu, me fez, enfim, perceber que devia largar a moeda que segurava hesitantemente. Então o rosto do homenzinho ao ver a moeda de 100 escudos cair dentro do saco abriu-se num sorriso bonacheirão, abençoou-me em agradecimento e continuou a sua santa missão.

Depois disso um homem alto, magro e com uma barba fendida muito parecida com a de Jesus Cristo apoderou-se da viola e iniciou uma cantilena hipnótica. Vestia uma túnica escura como a de um sacerdote e tocava como um músico de feira. À nossa frente balançava-se um homem de braços abertos como se quisesse levantar voo com a simples música que era entoada. Eu E a minha mãe quisemos experimentar também, talvez não fosse assim tão difícil voar. Mas rápido nos cansámos daquela brincadeira porque, afinal de contas, continuávamos a sentir o nosso corpo preso ao chão.

O misterioso padre devolveu a viola ao seu lugar e encarou a assistência com um rosto espantosamente sereno e benigno. Falou com uma voz cheia de doçura e de promessas maravilhosas. Toda a assistência ficou rendida àquela figura que transmitia o poder e a misericórdia de Deus.

No fim, os desgraçados e penitentes ficaram de frente para o padre, alguns de cabeça vergada e olhar de fazer chorar as pedras. Pelo canto do olho, vi que o senhor ao meu lado era repreendido como uma criança apanhada com a boca na botija. E, ao chegar a minha vez, colocou a mão quente e paternal sobre o meu coração e falou para mim, mas eu nada ouvia das suas palavras confortadoras.

Apesar de não ter ouvido o que ele me disse, fiquei com o moral mais alto, pois talvez ainda não tinha perdido a batalha contra uma cegueira cada vez mais real. Talvez existissem pessoas capazes de operar verdadeiros milagres como Jesus.

E foi assim que, embalados por uma doce ilusão, eu e a minha mãe nos deixámos enganar por outro charlatão que se dizia capaz de me curar. Porém, havia uma condição: a minha mãe tinha de lhe pagar uma boa soma do seu magro e esforçado ordenado, além de termos de assistir a todas as suas pregações, que eram proferidas do alto de um púlpito improvisado.

Eu também teria de rezar muito para as minhas preces serem bem-sucedidas, mas era o pastor, um sujeito de fato completo e cheio de importância, que tinha o dom da cura.

Lembro-me de algumas tardes a minha mãe ir comigo ao sítio onde o pastor fazia os seus discursos pomposos e dava murros no tampo da mesa como um possesso que queria sublinhar as suas palavras redentoras da humanidade. E foi um dia em que o pastor fazia atendimento a quem procurava consolo espiritual que a minha mãe lhe desabafou a sua profunda mágoa da partida muito prematura dos meus manos. Também lhe desabafou que tinha sofrido muito às mãos do meu pai, que muitas vezes chegava a casa bêbado e lhe batia, além de ter feito tantos filhos e mesmo assim ajudá-la pouco. Aqui o pastor começou com uma conversa estranha sobre Satanás e a sua legião de espíritos maus que se tinham apoderado dele para fazerem as suas malvadezas. Isso era um completo disparate, porém, numa altura difícil como aquela que estava a passar, eu não passava de um palerma que ainda acreditava no Pai Natal.

Além disso, o pastor era perentório ao dizer-me, escrevendo numa folha e com um marcador grosso e preto, que se eu rezasse com fé todos os dias ia ser curado por Deus, porque ele próprio o tinha sido da asma.

Ele costumava imitar Jesus Cristo impondo as mãos sobre a cabeça do desgraçado e evocando o nome do todo-poderoso. Contudo, nada de miraculoso acontecia e eu continuava a ver tão mal e a desesperar com todo aquele circo.

Nem o dinheiro que a minha mãe deixava na cesta dos donativos — um dia foram 500 escudos de uma assentada que não passaram despercebidos aos olhos do pastor –, nem as rezas diárias — que se estavam a tornar repetitivas e enfadonhas –, nem assistir aos longos e monótonos monólogos do pastor serviram para atenuar a minha angústia…

Vendo que eu continuava igual e que o pastor lhe cobrava muito para me curar com as suas rezas, a minha mãe deixou de me levar àqueles charlatões que só estavam interessados em explorar a carteira dos ingénuos e aflitos.

Compus uns versos que resumiam bem o que sentia e que começavam assim:

Súplica

Na hora de maior dor,

Supliquei a Deus o Seu pio calor,

Mas meu coração não serenou,

Em vão implorou e gotas de sal derramou… 

Ó Deus, só Tu me podes curar

E fazer com que cesse o meu torturar…!

Mas o teu abençoado milagre não veio,

Não atendeste ao meu desesperado anseio…  

A minha desgraça

Que mais leve se faça

Com uma fé que não tenho

Como a água que não retenho…

Só me restava aceitar a dura verdade, mas ainda não estava psicologicamente preparado. Pois era um jovem cheio de sonhos e que mal tinha deixado as saias da mãe…

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Medriquinhas e A Noite das Bruxas

Ficha técnica

Título original: Medriquinhas e A Noite das Bruxas
Género: comédia
Classificação: maiores de 12
Produtor: MB Entretenimento
Distribuição: Viajar Acordado
Data de lançamento: 28 de Outubro de 2021
Origem país: Portugal

Sinopse:

Medriquinhas é uma cachopa gordinha e feeinha mas muito bem-disposta e alegre. Tem puro horror de tudo o que se relaciona com o Halloween. E é precisamente nesse dia que recebe a inesperada visita de uma bruxa namoradeira que lhe pede ajuda para escolher um dos seus pretendentes.

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AUTOBIOGRAFIA DE UM JOVEM SURDOCEGO 4

Capítulo 4:

O Patinho Feio   

Estava em 1999 e ia passar uma semana de férias na Colónia de Nazaré.

Não era a primeira vez, porque já lá tinha estado o ano passado e tinha adorado. Mas nessa altura ainda via bem e andava solto como um rafeiro. Agora, porém, não sentia o mais vivo entusiasmo só de pensar na praia de areia dourada e nos banhos divertidos com os meus amigos da Fernando Casimiro, porque estava quase completamente cego… 

Quando partimos de autocarro numa manhã sem o sol radioso, a algazarra geral era contagiante pois todos estavam em pulgas para ver as ondas do imenso mar azul desfazendo-se em novelos de branquíssima espuma na areia áspera e salpicada de cmonchinhas.

Só eu não participava daquela euforia embriagante, porque continuava com a vista em frangalhos, que se tornava cada vez mais um problema real para a minha atormentada cabeça de adolescente, tão cheia de preocupações com a minha imagem e aceitação por parte dos outros…

Porque, no mais fundo do meu ser, vivia o drama de estar quase cego. sonhava voltar a ser de novo normal, ver e ouvir igual aos outros como antes de ter tido o acidente. A minha dor era saber que já não podia fazer o que tanto gostava como fazer desenhos, ver televisão, jogar à bola, sair com os meus amigos e sobretudo ver o rosto das pessoas que me eram mais queridas…     

A Colónia era uma casa grande, com um muro pintado de branco e com um bonito jardim à entrada. À nossa direita existia um tanque de cimento onde se podia lavar a roupa à mão; e à nossa esquerda abria-se um túnel em arco de paredes imponentes que dava acesso ao parque infantil, onde os miúdos acorriam como macaquinhos felizes para os balancetes, escorregas, túneis e baloiços.

Também era ali que ficava a entrada principal para a sala de convívio, o refeitório e os dormitórios que ficavam no piso superior.

Pedi insistentemente ao Bruno para não me deixar sozinho porque não conseguia orientar-me sem ajuda e porque não queria ser alvo de pena ou chacota.

O dia continuava sem o Sol sorridente e de manhã tinha caído um filete de água. Não vi que os bancos estavam molhados e molhei o rabo ao me sentar. E em vez de me lamentar, ri para disfarçar a minha desilusão.

Aliás, não queria dar nas vistas ao chocar contra as coisas porque não queria que descobrissem que via muito mal e me rejeitassem por ser diferente deles.

Além disso, poucos eram os que falavam comigo escrevendo-me na palma da mão com o dedo. Essa descoberta formidável da escrita na palma da mão foi graças à Licínia, que era a minha melhor amiga e a pessoa que mais falava comigo na escola. Foi como um suave e maravilhoso despertar em mim e o silêncio eterno em que vivia tornou-se numa doce canção cheia de sensações e emoções.

Disfarçava a todo o custo que não via com clareza as coisas à frente do nariz e menti descaradamente ao Hortelão quando ele me convidou para jogar às cartas com ele. No fundo, agia como um jovem normal e sem problemas da vista, mas os outros não eram estúpidos nem cegos, porque o Hortelão preferiu jogar às cartas com outros jovens deixando-me pendurado e profundamente triste…

O primeiro dia de praia foi a molhar os pés enquanto os outros se molhavam divertidíssimos. O sol finalmente brilhou quente e alegre num claro convite à felicidade, a esquecer por instantes a minha infelicidade e a juntar-me à bonança do mar.  

Mas eu não estava feliz… Tudo à minha volta podia ser soalheiro e as pessoas risonhas, mas encolhia-me sobre mim próprio na tentativa de me proteger de um mundo que já não era familiar para mim. Também sentia-me insatisfeito e aflito com o meu novo corpo, porque um exército de borbulhas enormes tinha invadido a minha cara e costas magras como uma praga; e, mais do que nunca, a minha aparência tinha toda a importância e morria de vergonha da grande cicatriz que tinha na barriga em consequência do meu acidente. Em suma, as minhas limitações eram como pedras no sapato.   

Mais tarde, no dormitório e enquanto esperava pela hora do jantar, todos os meus amigos estavam de volta de um Game Boy, soltando ao mesmo tempo gargalhadas e peidos muito malcheirosos. A minha presença não lhes interessava minimamente, só o Game Boy e,,, uma rapariga chamada Patrícia. Eu era o último a saber do que conversavam e se não insistia ninguém se dava ao trabalho de me dizer nada.

Eu tinha de chamá-los mas eles não me ouviam e os que não estavam a jogar não falavam comigo. Então ficava a olhar para eles cheio de inveja e pena de mim próprio. Só a muito custo soube o que eles conversavam animadamente sobre uma rapariga muito gira. Eu fiquei pensativo e não quis ficar-lhes atrás. Disse para mim mesmo que a iria conhecer também e que eles não iriam poder dizer que eu era o único que não gostava dela ou de outra rapariga que conhecessem.   

Na manhã seguinte, o mar estava gelado, mas isso era apenas um detalhe insignificante para os meus colegas. Mais do que com frio, eu sentia-me cheio de vergonha das minhas borbulhas-e da minha cicatriz na barriga, cruzando os braços para a esconder. Sabia que olhariam para ela e pensariam que era horrível, portanto mais uma vez limitei-me a molhar os pés.

Naquela mesma manhã conheci a Patrícia. Não foi um encontro romântico quando cruzei pela primeira vez o meu olhar com o dela. Porque os seus olhos castanhos estavam escondidos pelos óculos de sol e o seu rosto fixo no meu era muito franzido. E tive a desagradável sensação de que ela olhava com nojo para as minhas borbulhas, pois todos sem exeção tinham ficado horrorizados.

Fiquei aliviado quando ela deixou de me olhar tão fixamente e se afastou de mim e do Hortelão que andava a atirar-se a ela à vista de todos, incluindo das educadoras do Ninho.

No entanto, o seu sorriso era encantador, assim como as suas pernas altas e perfeitas. Lamentei ser surdo e não a poder ouvir porque ela sorriu-me abertamente quando regressávamos à colónia para almoçar e ela disse-me qualquer coisa especial.

Durante toda a sesta pensei muito nela com o coração galopando desenfreadamente no peito, com a cabeça às voltas com um sentimento novo e misterioso, como se só agora descobrisse que sentia um carinho diferente do que sentia pela minha mãe e pelos meus amigos.

À tardinha, na praia, os meus colegas juntaram-se num animado círculo para jogar às cartas e conversar, rindo entre piadas. e correndo atrás uns dos outros, atirando areia para cima dos que estavam deitados preguiçosamente ao sol. Então saí da minha concha para também entrar nas brincadeiras, mas eles pareciam nem notar a minha presença, nem demonstraram o menor interesse em me terem junto deles… Aquilo deixou-me pior do que já estava e quando fomos para a água fiquei sozinho como o patinho feio..

Todas as noites depois do jantar dávamos um passeio pela cidade, de repente coberta de luzes brilhantes.

Naquela noite de terça-feira o Bruno deixou-me ir contra um poste e os que iam atrás escancararam-se a rir. Pior do que a pancada foi a humilhação que senti com os outros gargalhando nas minhas costas. Talvez a Patrícia estivesse entre eles sufocando um riso histérico… 

Tivemos de voltar para a colónia. E enquanto a mim, espumava de raiva e só pensava arrancar a cabeça do Bruno. Sabia que tinha curiosos a assistir, esperando o desfecho da cena, e também sabia que a Dona Mia apregoava aos quatro ventos que eu não via, que era cego, surdo e muito teimoso… Pois eu o percebi logo quando outra educadora me perguntou quem era para ver se eu a via realmente. Foi nesse instante que explodi e lhe respondi torto.

Mal tive a testa limpa e desinfetada, levantei-me de um salto e precipitei-me no corredor à procura do sacana do Bruno. Foi então que a Licínia agarrou-me pelo braço e gritou-me aos tímpanos qualquer coisa furiosa. Ao menos estaquei e entendi que ela pela primeira vez estava brava comigo e com razão. Porque ela tinha muito mais juízo do que o Bruno, que não passava de um fedelho que detestava responsabilidades. Aliás, era ela a minha guia e a amiga que tão prontamente se tinha oferecida para me ajudar no que eu precisasse. Já o Bruno não, nem os outros lhes apetecia serem a minha ama-seca.     

A Licínia deixou-me nos lavabos onde jovens debruçados ao espelho escovavam os dentes. Sentia-me a pessoa mais infeliz e só no mundo e queria ir para casa, fechar-me no meu quarto refugiando-me num mundo de fantasia. Para onde eu me virava o meu rosto triste e feio fitava-me de todos os lados, um estranho tão diferente do jovem alegre e bonito que fui…

Foi então que uma mão suave tocou-me no ombro. Voltei-me devagar e a última pessoa que esperava ver apareceu diante de mim, sorrindo-me com carinho. Era a Rosana Patrícia.

Ela escreveu-me o seu nome na minha mão para eu perceber que era ela, que eu ia ficar logo bom e para minha surpresa deu-me um beijinho de boas-noites na face.

Esqueci a minha vingança, esqueci a humilhação, esqueci tudo menos aquele beijinho que tinha no coração!

Na manhã seguinte, enquanto tomava o pequeno-almoço, o Bruno voltou-se para mim com um sorriso malandro e anunciou-me que a Patrícia estava de minissaia cor-de-rosa. Procurei pela mesa onde ela costumava comer com as amigas, que ficava mesmo atrás da minha, mas para meu grande desapontamento não consegui vê-la e muito menos a minissaia..

Saí para o parque com o Bruno e com o Márcio que tudo viam à sua volta com a maior das facilidades. Eu nada via que prestasse e não podia gozar da beleza envolvente e do mar majestoso ao longe.

Além disso, a praia de manhã foi uma porcaria porque continuava a ser posto de parte pelos meus colegas que iam radiantes para a água gelada. Queria desesperadamente ser igual a eles, ver como dantes e poder divertir-me como eles se estavam divertindo com a Rosana.

Bem perto da Colónia havia um cinema e eu e alguns colegas fomos de tarde ver um filme português. Sentei-me na primeira fila e mesmo assim não via nada, apenas formas indistintas e confusas… A Licínia perguntava-me pela enésima vez se eu estava a ver bem o filme e eu mentia-lhe pela enésima vez, mas ela não era burra, bem via que eu virava e revirava os óculos numa tentativa frustrada de ver alguma coisa.

Felizmente, o mar naquele dia estava aprazível, com temperatura agradável, e atirei-me de cabeça sentindo a frescura revigorante. Pela primeira vez esqueci os meus problemas e permiti-me ser feliz. E não era o único que estava feliz. Ao meu lado estava a Patrícia que sorria feliz para mim. Dei um grande tombo ao vê-la e quando me levantei ela já não estava mais ao meu lado.   

Quinta-feira foi um dia longo para mim. A Patrícia levava-me pela mão até ao mar que naquela manhã de céu carregado arrastava as pedras e a areia consigo arranhando a pele. Eu rezava para que a minha cicatriz não a impressionasse e desejava ardentemente ficar para sempre com ela de mãos dadas. Ficámos a conversar à beirinha do mar, até que apareceram o Hortelão e o Figaredo, que se colocaram de cada lado dela e começaram a puxá-la na brincadeira para a água gelada. Eu ia para afastar aqueles parvos mas detive-me, porque ela deixava-se levar no meio de gargalhadinhas.

Depois do almoço caí num sono de chumbo e quando acordei só estava eu e o Hortelão no dormitório. Ele contou-me que tinha ficado muito maldisposto dos amendoins que tinha comido no cinema e convidou-me para jogar às damas. Aceitei e perdi logo porque a maldita da minha vista não me deixava distinguir nada… Ele até me ajudava a colocar as peças, mas a minha frustração de não conseguir jogar exauriu-me completamente. Porém, a minha frustração não tinha fim. Porque fomos lanchar para a sala de convívio que tinha uma televisão e não consegui ver os desenhos animados, e muito menos saber que eram do Bob Esponja… E quase me estatelei nu no meio do corredor ao tropeçar na máquina de encerar o chão quando ia tomar banho.

Passeávamos pela calçada ao longo da praia escura. Os holofotes despediam uma luz alaranjada que não conseguia iluminar o meu coração amargurado, Segurava o ombro ossudo do Bruno que chupava um chupa-chupa, enquanto pensava na resposta da Patrícia. Ela não quis responder-me com franqueza, limitando-se a dizer que lhe doía a cabeça… Todos estavam a olhar e a ouvir, e ela deve ter ficado de boca aberta e sem saber o que fazer. 

Então recordei com raiva e fel a crueldade dos outros, que destruíam qualquer manifestação de carinho com a chacota. Porque, um belo dia, uma rapariga da escola demonstrara interesse em mim, mas as colegas dela e os meus gozaram-nos bué. A pobre da rapariga ficou sem coragem e as colegas fugiram de mim quando me aproximei como se eu fosse horroroso. 

Sexta-feira era o último dia de praia e de manhã o mar estava muito bravo, por isso fomos dar uma volta à beira mar. No entanto, e para grande contentamento, o mar de tarde estava amigável, quase sem ondulações. Até parecia que toda a gente da praia estava na água.

Eu tomava banho sozinho como sempre quando um rapaz numa prancha quase me derrubou. Estava muita gente à minha volta e o sol tinha desaparecido como um mau presságio. Pois ao aproximar-me da nossa tenda percebi que algo ruim tinha acontecido. Reparei, então, que se tinha formado uma multidão de basbaques à volta de uma rapariga que tremia descontroladamente de frio. Como ninguém me dizia nada, com toda a sua atenção centrada na infeliz, busquei uma resposta. E foi assim que fiquei a saber pelo Figaredo que era a Rosana que se sentia mal. Também fiquei triste mas não ao ponto de me pôr aos pulos furioso como o Hortelão. a quem tinham negado acompanhar a sua amada ao hospital.

Depois de nos despacharmos para o jantar, eu e o Figaredo fomos para uma salinha sossegada. Ele estava muito murcho e eu não sabia porquê, mas suspeitava que tivesse alguma coisa a ver com a Patrícia. O Hortelão apareceu mais calmo a dar-nos a boa notícia de que ela estava de volta do hospital. Ele fora logo o primeiro a saber como se ela própria lho tivesse dito.   

Quando ele se retirou, apareceu uma rapariga muito gira e alegre chamada Margarida. Gostei logo dela que me achou um rapaz bonito e atraente.

Quando eu e o Figaredo descíamos para o jantar, ele confidenciou-me que não gostava dele por ser feio e gordo e que não queria ter nascido. Ele tinha uns olhos incrivelmente lindos, de um verde muito claro, e não era feio e obeso como dizia. Afinal, havia pessoas mais infelizes do que eu. Porém, em vez de o tentar animar, pedi-lhe que me levasse até à Margarida.

Porque se a Patrícia não gostava de mim tinha de partir para outra. mas a Margarida tinha dezassete e eu quinze e ela era de opinião que os rapazes eram muito infantis. A timidez prendia-me a língua e só sabia gaguejar. Pedi-lhe então um beijinho porque a Patrícia não me dava um, o que foi um erro ao ter falado da outra… Ela riu-se e perguntou-me se eu queria ver a Rosana, o que em certa medida era verdade.

Entrei no dormitório da Patrícia que estava demasiado escuro para mim. A Margarida pôs a minha mão sobre a dela, que ao toque me pareceu muito frágil. Perguntei-lhe de mansinho o que lhe tinha acontecido mas ela não teve forças para me estar a escrever na palma da mão letra a letra e acabei por ter de sair para a deixar descansar. 

Uma vez lá fora e sentados nos bancos, ganhei coragem, disse à Margarida que a achava bonita e perguntei se tinha namorado. Apanhada de surpresa, a Nizé riu-se soltando um grande peido. Fiquei vermelho como um tomate quando ela me escreveu ainda rindo que era a mãe da Margarida e não a Margarida e que eu era um malandro.      

Mal toquei no jantar desanimado por nenhuma rapariga gostar de mim por eu ser diferente e ter borbulhas a dar com um pau. Se ao menos visse como os outros não seria tão infeliz. Nada era mais doloroso do que saber que estava a perder o sentido mais importante demasiado depressa e sem que pudesse fazer nada…

Sem estar à espera, senti em cada bochecha um par de lábios acetinados que me devolveram a cor e o brilho. Não era a Rosana por quem estava apaixonado, mas a Licínia e a Margarida, que me beijaram ao mesmo tempo. Aquele gesto inesperado fez-me esquecer por instantes as minhas tristezas e sentir-me menos como o patinho feio.   

Era festa e todos eram iguais, todos se divertiam, todos queriam a festa! Mas eu não me sentia igual, eu não me divertia, eu não queria a festa. Quem é que queria convidar-me para festa??

Além disso, tudo tinha acabado entre mim e a Rosana. Refugiei-me no dormitório com o Bruno que estava indiferente às paixonetas dos amigos. Doze anos não eram idade para maluquices daquele género e ele disse que eu era ciumento porque não era o único que gostava dela. Se ela não me queria como namorado só tinha de aceitar a sua amizade. Mas eu encarava aquilo como uma rejeição por causa das minhas deficiências que no meu entender eram obstáculos a um relacionamento amoroso.  

Entretanto, o Márcio apareceu à minha procura. Não me apetecia ver ninguém e dei-lhe um berro para que bazasse, mas ele trazia um recado da Patrícia… Não teria sido o fim? O recado era muito simples. Fui ter com ela, que estava sentada no meio do Hortelão e do Figaredo. Ela limitou-se a dar-me um beijinho, talvez para que eu não ficasse chateado com ela e sentisse que ela gostava de mim como um bom amigo.

Deram-nos balões e o Bruno foi divertir-se com o baile enquanto eu fiquei sentado com um balão sentindo-me ridículo. De repente, o balão escapou-me da mão, estiquei-me para o procurar, mas o maldito estava invisível aos meus olhos. Então, afastei a minha cadeira para que não pensassem que o balão era meu, a Nizé apareceu entretanto com o meu balão, e em vez de ficar contente rebentei o balão de propósito.

E ao deitar e antes de o dormitório mergulhar na escuridão, a Patrícia deu-me um beijinho. Teria ficado maluquinho de todo com outro beijinho, mas, no fundo, o que ela sentia por mim era pena. Pena de eu não ouvir, pena de eu não ver e pena de ser uma pessoa triste.    

Na manhã seguinte, íamos para casa. Havia pessoas que não ia voltar a ver. A minha melhor amiga Licínia de quem ia ter muitas saudades. E a Margarida que gostava de outro rapaz. E quanto à Patrícia, ainda iria procurá-la esperançoso várias vezes até me convencer definitivamente que ela não passava de uma paixão aguda de adolescente, daquelas paixões que só se curavam com outra, e que ainda teria muito para sofrer…

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MULHER

És MULHER de grande valor

Um ser de amor feito para acarinhar

Frágil como uma linda e delicada flor

Que torna perfumado e suave o meu caminhar.

Minha vida sem ti não é nada

Porque o teu amor é-me tudo

Seria uma alma inacabada

Um animal empedernido e bruto. 

A mulher não é escrava do homem,

Não é inferior nem superior,

Nem como produtos que se consomem.

É um ser de um maravilhoso e incompreendido interior..

Qualquer violência é contrária ao amor,

E o homem que a usa contra a mulher é um cobarde desprezível

Que não entende nada de respeito e humano calor

Pobre egoísta enfermo e solitário incorrigível.

Pois a MULHER é um ser de grande valor

Geradora da Vida e da ESperança

E do mais belo e poderoso amor

Esse sentimento de harmonia e perseverança que nos alcança

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AUTOBIOGRAFIA DE UM JOVEM SURDOCEGO 3

Capítulo 3:

Onde Estás Esperança?

Uma noite e aos 12 anos acordei maldisposto e a tossir bué. Sentia uma vontade esmagadora de vomitar mas o que aconteceu de súbito encheu a minha mãe e as minhas manas de terror, porque a minha boca parecia uma torneira jorrando o meu próprio sangue, sem que eu conseguisse sequer parar para respirar um pouco…

Felizmente. mal cheguei de ambulância ao Centro de Saúde e me estenderam uma bacia metálica. a torrente de sangue tinha parado tão subitamente como tinha começado.

Porém, para meu azar, tive de ser internado de novo. Os dias no hospital eram extremamente longos e enfadonhos, só as visitas ocasionais da minha família tinha o condão de os tornar mais suportáveis e felizes. Aliás, já tinha umas saudades tremendas dos meus amigos do bairro, da minha maninha mais nova e claro de casa… E quase tive uma crise de choro quando pensei que a minha médica me ia reter mais umas semanas.

Na altura, estudava na escola regular e era o único aluno surdo profundo que não entendia népia do que os professores diziam em voz alta. Por essa razão era particularmente fraco a Inglês e Matemática, já para não falar de Musical…

Tinha, porém, descoberto um método de comunicação que consistia em trocar mensagens escritas no meu caderno com os meus colegas, além de os perceber através da mímica e do movimento dançante dos lábios.

E era assim que entabulava conversa com os colegas mais próximos, trocando com eles bilhetinhos em vez de prestar atenção à lição.

Além disso, tinha facilidade em fazer amigos que raras vezes me tratavam de maneira diferente, porque, lá no fundo, éramos todos iguais. Só não gostava mesmo nadinha das provocações, quando me insultavam chamando-me surdo ou quando era sempre escolhido para defesa e suplente nos jogos de futebol interturmas.

No primeiro período tinha três ou quatro negas bem avantajadas, porque não me agarrava aos livros com entusiasmo, preferindo os recreios e fazer macaquices.

No entanto, foi no final de concluir o sexto ano que o meu olho que ainda via bem começou a pregar-me partidas… Porque fui notando que já não conseguia ver o quadro negro da sala, só muito de perto e mesmo assim com grande esforço. A noite, antes mágica e misteriosa, tornou-se ameaçadora porque já não conseguia ver com nitidez os vultos mesmo com os postes de iluminação ligados. E para poder ler os meus livros de banda desenhada procurava a luz potente do sol que me deixava momentaneamente ofuscado e zonzo…

Não tardou que fosse curtir as férias grandes novamente no hospital para meu desespero…

Fui operado duas vezes seguidas, mas a terceira operação foi um pesadelo medonho…

Nunca percebi o motivo para a minha médica fazer-me sofrer de forma tão cruel, Nem a minha mãe, uma simples empregada de limpeza, percebia os termos demasiado técnicos que a doutora empregava para falar com os totós e matarruanos.

Porque ao acordar da última operação, queixei-me à minha mãe com dores nos olhos. Os seus gestos carinhosos na minha mão de nada serviram, porque as dores não me largavam um segundo.

Além disso, sentia-me inquieto com as compressas que me impediam de ver fosse o que fosse. Foi então que me pus de pé de rompante e arranquei-as. Uma sensação de horror e choque apoderou-se de mim ao aperceber-me da terrível realidade.

Jamais pensei que pudessem fazer aquillo comigo ou com outro ser humano… Porque os meus olhos tinham sido literalmente cortados ao meio e cosidos e estavam cheios de marcas dos muitos pontos que levei. Mesmo com os olhos fechados eu podia ver uma faixa preta e indelével a dividir os meus bonitos olhos ao meio…

E os óculos que tive de usar eram pesados e horrorosos nas palavras da minha irmã Rute. As lentes eram realmente grossas tipo lupa e divididas ao meio, sendo as de cima as mais grossas, dando-me o aspeto de uma assustadora tarântula de quatro olhos.

Sentia-me terrivelmente mal e o engraçado de tudo era que algumas raparigas engraçavam comigo, não por causa dos meus óculos de E.T. mas pelo meu sorriso meigo e por ser alto e charmoso.

Entretanto, aprendi da pior maneira que a crueldade de certas pessoas não tinha limites. Porque a minha mãe perdeu o emprego só porque teve de ficar comigo um mês e tal no hospital e faltar ao trabalho para ir comigo às consultas. Bem vi como as pessoas eram hipócritas com ela, que nem as suas lágrimas de humildade amoleceram aqueles corações de pedra. E um parvalhão dirigiu-se a mim a perguntar se eu não ouvia mesmo nada e detestei-o, porque ele e os outros eram uns invejosos que só queriam roubar o lugar à minha mãe. E, em vez de lhe responder, fingi que não era comigo e afastei-me dele. A minha mãe foi o resto do caminho para casa muito infeliz comigo a seu lado cheio de pena.

Entretanto, só conseguia ler ampliado e com o apoio de uma lupa. Para comunicarem comigo tinham de me escrever no caderno ou com o dedo em superfícies lisas, como mesas ou paredes de azulejo.

Como era surdo e tinha baixa-visão era difícil aprender igual que os meus colegas. Tinha apoio individual em algumas disciplinas, sobretudo Inglês e Matemática, e ia regularmente ao apoio especial, mas a minha diretora de turma queria que eu fosse para uma instituição de jovens surdocegos, com o argumento de que lá estaria melhor e junto dos meus iguais.

Contudo, não me sentia nada igual aos outros meninos surdocegos que tinham na sua maioria deficiência cognitiva profunda e e algunspoucos perturbações psiquiátricas.

Além disso, pouquíssimos eram os que falavam com a sua própria voz sublinhando as palavras com gestos fluidos e bastante expressivos. Eu ficava embasbacado a olhar para eles que se entendiam lindamente e sem constrangimentos.

Contudo, entendia que ali não podia prosseguir os meus estudos como na minha escola de Rio Maior, porque tinha de aprender a ser surdocego. porque tentaram em vão ensinar-me língua gestual e Braille, mas eu não topava isso como se alguma vez viesse a precisar, até porque a simples hipótese de ficar cego me deixava apavorado.

então decidi arranjar desculpas esfarrapadas para não voltar para a instituição. E fiquei fulo com a minha ex-diretora de turma a quem chamei nomes nas suas costas quando soube que não estava matriculado no oitavo ano.

A esperança de que estava melhor da vista não passava de uma quimera, de um Sol de felicidade ensombrado por nuvens de incerteza. Pois a minha vista estava longe de melhorar e de ano para ano via cada vez pior…

Também as idas ao hospital sucediam-se inglórias e esgotantes, e sempre que regressava a casa deitava-me na cama sem alegria no coração.

Andei de médico em médico com as minhas irmãs e nenhum podia fazer nada para me ajudar. Houve um que chegou mesmo a afirmar que a minha médica só tinha estragado a minha vista, porque o meu problema era descolamento da retina e a minha médica se não sabia o que estava a fazer não tinha de mexer no meu olho, apesar de ela argumentar que se não me tivesse operado eu acabaria por piorar com o tempo e perdido a visão mais depressa.

Mas eu em vez de ficar bom estava pior. E tinha de aprender Braille por recomendação médica, o que me deixava cada vez mais angustiado, chegando mesmo a baldar-me ao apoio para não ter aulas de Braille.

Estava no nono ano na altura com 15. As férias de Verão estavam à porta, até que enfim! Mas ainda faltavam as provas globais e precisava de muita luz, de modo que me sentava sempre à janela para a luz forte do sol ajudar-me a ver melhor.

As primeiras provas correram mais ou menos e a minha vista começava a ficar cada vez mais cansada e pior que nunca, que, um dia, fiquei completamente desorientado na escola e em vez de sair por uma porta aberta choquei estrondosamente com uma fechada… Afastei-me rapidamente de ao pé dos que estavam a olhar para mim, pois não queria ajuda, nem que se apercebessem de que via mal.

Já no fim das provas, tinha atingido o limite da minha vista que se vingava sobre a forma de uma claridade esbranquiçada que não me deixava ver a um palmo do nariz. E fui incapaz de estudar para História, que era a última prova e não fiz nada de jeito para um trabalho de Educação Física…

Tentei descansar na primeira semana de férias, mas o meu olho continuava ressentido e negava-se a recuperar… Com ele assim não tinha qualquer vontade de me divertir, pois até em casa ia contra os outros e contra as coisas…

Aliás, não estava desertinho de passar uma semana numa colónia de férias que estava muito para breve, porque as raparigas não iam gostar de um rapaz como eu, quase cego e dependente. E estava mesmo prestes a descobrir que os meus receios estavam certos…

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AUTOBIOGRAFIA DE UM JOVEM SURDOCEGO 2 – A AVENTURA CONTINUA

Capítulo 2:

O Menino Que Sobreviveu

Estávamos em Dezembro de 1991. Aconteceu tudo tão rápido, tão inesperadamente e de forma tão violenta que o meu pobre cérebro sofreu um apagão com a grande pancada que dei com a cabeçaSó me lembro que ia para a escola com a minha irmã Maria João que não foi a tempo de evitar que eu fosse atropelado por um camião que seguia a grande velocidade. Com a minha pressa de atravessar a estrada, não me apercebi do perigo e o camionista só parou uns metros mais à frente depois de chocar violentamente comigo. Por sorte não fiquei por debaixo do camião e não fui uma segunda vez atropelado quando fui projetado como um boneco.

Estava numa estrada que era uma reta sem qualquer proteção para os peões e muito menos para as crianças que iam felizes à escola a pé. E antes de perder a consciência e mergulhar na escuridão, levantei a cabeça que sangrava com muito esforço e chamei debilmente pela minha mãe, a pessoa que mais amava no mundo e que era capaz de me proteger de todo o mal.

Sobrevivi embora estava bastante debilitado e sem saber onde estava. E quando abri os olhos estava cercado por máquinas cheias de pontinhos brilhantes e por um senhor vestido de branco. Pouco depois apareceu no meu campo de visão uma senhora emocionada. Não reconheci aquele rosto suave e doce e virei-lhe a cara quando ela chamou por mim e me beijou as faces pálidas. Mas assim que voltei a mim só queria a minha mãe ao meu lado e ficava terrivelmente murcho, quase choroso, quando o tempo das visitas chegava ao seu término e ela tinha de ir embora…

Entretanto, durante a minha convalescença surgiram uma série de problemas de saúde graves, porque logo após o acidente aperceberam-se que eu tinha ficado surdo de ambos os ouvidos, cego de uma das vistas e quase condenado a uma cadeira de rodas de tão grande que foi a tareia que levei. E, como se isso não bastasse, fiquei com um problema irreversível no coração… Além disso, não podia comer porque tive de ser operado de urgência aos intestinos e em consequência fiquei com uma grande cicatriz na barriga. Rapidamente transformei-me num anorético autêntico.

Não sei quanto tempo estive internado no Santa Maria, mas de uma coisa estava certo: ia passar o Natal sem a minha família… As pessoas falavam que fora um milagre eu ter sobrevivido com apenas 8 anos. Até o médico disse aos meus pais para não terem muitas esperanças de eu sair do coma com vida. Mas eu agarrei-me à vida como uma lapa, suportei corajosamente tudo sem titubear, comecei de novo a andar como um bebé e finalmente pude comer como um menino saudável. Ganhei peso e cor à custa de tanto devorar os iogurtes dos Orelhudos e os doces que a minha mãe comprava para mim. E coitado do médico que tinha de fazer força para me colocar em cima da balança!

Entretanto, uma tragédia terrível abateu-se sobre a minha família pouco depois do meu acidente. Foi o desmoronar da minha mãe ainda mal refeita do susto de quase me ter perdido. A minha mãe caiu numa depressão profunda quando, em 6 de Maio de 1992, o Paulo, o Rui e o André Filipe partiram com 3, 4 e 5 anos num incêndio que destruiu a nossa casa e a nossa alegria. A princípio, não acreditei mas os meus pais estavam completamente de rastos e ao repousar a cabeça na almofada para dormir chorei até sentir a fronha molhada e ser vencido pelo cansaço. Nunca tinha visto a minha mãe tão infeliz e abatida…

Contudo, na minha ingenuidade de criança os meus maninhos não tinham morrido de verdade e a qualquer momento iam voltar sorridentes e cheios de vida. Além disso, eu queria que me perdoassem por ter sido muito egoísta com eles, porque não os deixava brincar comigo e com o meu melhor amigo Fábio e por muitas outras garganeirices de pimpolho. Recordava-os cheio de nostalgia, até quando o Rui me foi visitar ao hospital e eu lhe passei um braço pelos ombros finos para o confortar quando os meus pais lhe ralharam por ele ter metido o sapato novo numa sarjeta com água suja

Com óculos de cientista e antenas parabólicas nos ouvidos, voltei feliz para casa, não para a minha evidentemente, que ficou reduzida a um monte de entulho e destroços. E foi com um enorme sorriso que voltei ao Matão de que tinha saudades e perdido o terceiro ano.

Os meus tios emigrados emprestaram-nos uma casa enquanto a nossa era reconstruída a partir do zero. Era uma casa simpática e com um quintal nas traseiras e um terraço onde a minha mãe podia estender a roupa. No entanto, não era a mesma coisa que a nossa pequena e velha casinha onde tantas vezes nos sentávamos à lareira a contar histórias e a improvisar teatros como o Capuchinho Vermelho ou a andar de baloiço com uma corda suspensa numa viga do telhado.

Para me dar as boas-vindas, o meu pai ofereceu-me uma cadela muito fofinha chamada Laica. Eu adorava cães e foi uma festa quando vi a Laica pela primeira vez, uma rafeira branca e com manchas castanhas. Os seus olhos castanhos amendoados eram muito meigos e e expressivos. Preocupava-me muito com ela que, uma tarde de chuva, tapei-lhe a entrada da casota porque ela ia tomar banho à chuva toda satisfeita. Ainda era mais esperta do que eu e conseguia sempre voltar para os seus banhos. então eu abandonava o meu posto de vigia muito refilão porque não tínhamos dinheiro para gastar no veterinário.

A desgraça com a morte trágica dos meus irmãozinhos continuava fresca e em vez de diminuir com o tempo aumentou dolorosamente com a morte do meu melhor amigo de infância Fábio. Foi um momento muito triste e o ambiente na casa dos seus pais quando soubemos da notícia que ninguém queria era do mais completo abandono e desespero. Eu não sabia que no dia fatídico ele estava com os meus manos, muito provavelmente felizes e rodeados de tantos brinquedos que me deram quando estive internado no hospital e que jamais tiveram nas suas breves existências… Sentia que uma parte de mim tinha morrido e que tinha ficado um grande vazio no meu coração que começava a aprender depressa que a vida é bem diferente dos desenhos animados, coloridos e onde tudo acabava às gargalhadas…

No entanto, para minha imensa felicidade no dia 18 de Março de 1993 nasceu a minha maninha querida Cátia. Foi como um raio de sol nas nossas vidas, uma aragem fresca e uma nova razão de viver. Fiquei um pouco desapontado por ser mais uma mana, mas quando vi aquele ser minúsculo e tão frágil fiquei completamente enternecido.

A minha vida prosseguia o mais normal possível, comigo sempre a partir os óculos na escola e na serração, quando, um dia, armado no incrível Hulk, quis carregar sozinho dois baldes cheios de cimento para ajudar o meu pai a reconstruir o nosso novo lar, que ficou pronto graças em grande parte ao sacrifício das minhas irmãs mais velhas e à generosidade dos nossos vizinhos. Em memória dos meus falecidos irmãos, o meu pai colocou na frente da casa três corações de três anjinhos para nos protegerem e que teriam adorado a nova casa, mais espaçosa e com as comodidades que nunca tiveram…

Entretanto, o nascimento da minha irmã mais nova não foi suficiente para unir os meus pais que algum tempo depois de nos mudarmos passaram a dormir em quartos separados. Nem quando tive uma pneumonia horrível e o meu olho bom começou a piorar de forma angustiante…

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AUTOBIOGRAFIA DE UM JOVEM SURDOCEGO

Capítulo 1:

O Começo

Vim ao mundo num soalheiro 20 de Julho de 1983. Os meus pais receberam-me com muita alegria e amor, porque antes de eu nascer a minha mãe só tinha tido raparigas.

Era o primeiro rapaz de quatro raparigas, um maltezinho bonito como as irmãs, de olhos castanhos e rasgados.

Apesar de ter nascido em Santarém, a cidade que me viu crescer foi Rio Maior, uma cidadezinha agradável e pacata no meio do campo.

A minha família era muito humilde mas nunca passei fome e dava-me muito carinho. Eu e as minhas irmãs mais novas adorávamos tomate com sal e pão com açúcar, uma guloseima tentadora.

O meu pai chamava-se João e era pedreiro. A minha mãe chamava-se Isabel, mas era mais conhecida por Bela. Trabalhavaa no pão e eu costumava esperá-la de manhã cedinho para ser o primeiro a tirar um pedaço saboroso de pão fresco e branco.

Como éramos muitas bocas para alimentar e o meu pai gastava quase todo o seu dinheiro nas tascas, ao invés de a Sandra e a Cláudia continuarem os seus estudos, tiveram de trabalhar numa fábrica de sapatos. A minha avó Palmira ajudava a minha mãe e nunca gostou do seu genro, porque ele não sabia tratar bem a minha mãe.

A nossa casa era muito pobre e pequena e não tinha uma sala de estar. Não tinha janelas com vidros; e, para tomarmos banho, tínhamos de aquecer a água no fogão, não tínhamos eletrodomésticos e a roupa lavava-se à mão no pequeno tanque que tínhamos ao lado da porta de casa.

Tive mais três irmãos, o Paulo, o Rui e o André. Não brincava muito com eles, preferindo brincar com o meu vizinho Fábio que tinha uma pancada por apanhar minhocas e as meter num balde para a pesca.

Era um vadio que não parava em casa. Ia jogar à bola com os meus amigos do bairro e à noite fugia ou escondia-me da minha mãe quando eram horas de ninar. Porque adorava as noites de serão, os jogos de que não queria perder e a cata aos pirilampos nas noites amenas de Verão.

O Verão era a estação mais bonita do ano. A minha casa ficava para os lados da Freiria e das várzeas e campinas ribatejanas, onde antigamente corriam moinhos. E um pouco mais distante das hortas e quintas era a Serra dos Candeeiros, onde junto das Bocas se faziam animadíssimas festas, povoadas de alegre música do rancho do Ribatejo. As Bocas eram de uma pureza e doçura que deixavam transparecer as pedras, as plantas e os peixinhos dos ribeiros.

Era nessa época que eu e os meus irmãos íamos ao açude tomar banho. Os banhos eram fantásticos, pois brincávamos muito a chapinhar na água e a molhar-nos uns aos outros. Numa das partes do rio, o seu leito era um tapete macio de areia e mais se parecia com uma piscina natural e muito concorrida. Eu ia espreitar os lagostins que se semi escondiam junto das represas ou procurava ninhos de patos bravos. A minha mãe costumava apanhar agriões para as sopas que eu papava tudo.

Ao pé da minha casa havia baile e a rua que se chamava Rua do Alecrim era enfeitada de grinaldas de papel de cores vivas, de grandes ramos de alecrim e de folhas de eucalipto que impregnavam o ar com o seu cheiro forte e que trazia pensamentos bons. Os homens azafamavam-se a montar o palco onde as noites de Santos eram mágicas e doces como o amor e o vinho. A bruxa de pano estava atada a uma estaca e as crianças maravilhavam-se com ela contorcendo-se nas chamas dançantes. Também os foguetes eram outro dos nossos fascínios e quando subiam no céu lançando estampidos de canhão víamo-los desaparecendo na noite. Eu sobressaltava-me com os bang, bang, bang dos foguetes e tinha a pancada de ir à procura dos seus insignificantes restos, que às vezes tinha sorte e me sentia orgulhoso com o achado.

Mas de tudo o que mais me fazia feliz e um tanto acanhado era o meu secreto fraquinho por uma menina francesa que vinha todos os verões para casa dos avós portugueses que viviam ao lado da minha casa. Chamava-se Cindy e brincávamos juntos. Não havia um único dia que eu não a visse e fosse ter com ela. Era como o seu lacaio, mas ela gostava do Gabriel, um garotão de aspecto atlético e mais velho do que eu. Como era um garoto tímido e franzino nem mesmo uma bela manhã em que fui com a Cindy para as Bocas e ela se despiu e me convidou a fazer o mesmo fui capaz…

Quando completei 6 anos fui para a Escola do Matão. Os meus pais não puderam comprar-me o material escolar de que iria precisar e a escola emprestou-me algum material feio e usado. Senti inveja do lindo dossiê da minha colega do lado, novinho em folha e com desenhos muito bonitos de uns bonecos que estavam muito na moda. O meu dossiê era escuro e sem desenhos. Era um aluno médio, longe de ser brilhante, mas, em compensação, adorava a escola, sobretudo os recreios e o pão com Tulicreme que a contínua Dona Olívia dava aos meninos mais pobres. A juntar ao lanche, bebíamos leite com chocolate e lembro-me que certa vez uns alunos do primeiro ano fizeram um cartaz cujo céu era feito com aqueles cereais em forma de estrelitas douradas e comi algumas à socapa.

A Escola do Matão era uma escola bonita apesar de já ser velha. A casa de banho dos rapazes, estreita e com uma torneira enferrujada sem lavatório. Não tinha luz nem porta. Mas não tínhamos de nos ralar, pois não corríamos o risco de sermos apanhados de piloca ao vento por uma menina, pois as meninas tinham a sua própria casa de banho no outro pátio. Mas para cagar tínhamos outra casa de banho ao lado, felizmente com porta, mas a chatice era que tínhamos de ficar agachados para um buraco no chão.

Estava numa escola primária que na sua frente tinha um grande terreno de areia onde todos os intervalos era ocupado pela bola e pela gritaria dos putos. Quando chovia íamos para as traseiras, ou seja, para os pátios que estavam abrigados pelo grande telhado da escola e juntava-me à porrada, levando muita porrada do Paulo Jorge, o valentão da escola. Os meninos traziam sempre uma bola e éramos terríveis, porque chutávamos a bola contra as portas das casas de banho das pobres raparigas que não podiam fazer o seu xixi descansadas.

A escola tinha um rés-do-chão e um andar e quatro salas: duas do lado este e outras duas do lado oeste. Era interessante essa estranha ordem, pois os primeiros e segundos anos ficavam para nascente e os terceiros e quartos anos para poente. Aliás, quando passei para o segundo ano mudei para a sala de cima, todo orgulhoso de ter subido uns degraus mais na vida.

Tinha uma colega chamada Vera, gordinha e com caracóis pretos, mas nem mesmo com os seus grossos óculos de corujinha conseguia enxergar claro. Estragava as pontas dos marcadores que eu lhe emprestava de muito carregar e parecia ter montes de dificuldade em ver mesmo a centímetros do seu nariz. Não tinha amigos e se tinha eram pouquíssimos. Ficou pouco tempo na escola até ninguém saber mais dela.

Recordo-me bem dela, sobretudo do seu olhar triste por ser feia e ninguém lhe dar bola, ou sequer a defender dos meninos maus. Não sabia que pouco tempo depois ela estava cega e por isso nunca mais a voltei a ver na minha escola.

E também não sabia que a minha existência feliz de criança despreocupada estava preste a mudar. Para todo o sempre.

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